Olhando para trás - Rafael Baltresca

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Olhando para trás

by  Rafael Baltresca

Dia primeiro de abril de 2010 comecei um dos maiores desafios de minha vida. Saindo da cidade Saint Jean Pied-de-Port, oeste francês, comecei o Caminho de Santiago, uma peregrinação a pé por toda a Espanha que duraria quarenta e quatro dias e novecentos quilômetros, revivendo um caminho escrito há muitos anos, o caminhos das estrelas.

A rotina era simples. Acordava de manhãzinha, tomava um café rápido, colocava uma mochila de oito quilos nas costas e começava a peregrinação. Passava por montes, montanhas, ruas de asfalto, riachos, videiras, estradas de terra, etc. Normalmente, há cada oito ou dez quilômetros havia um bar, uma venda ou algum lugar para parar e tomar um café. E, assim, pouco a pouco, ia percorrendo o meu caminho mágico.

No dia 21 de abril de 2010 acordei às 5h20min da manhã. Arrumei minha mochila e às 6h00min da matina já estava de café tomado e com o pé na estrada. Uma hora e pouco depois, cheguei em Carrión de los condes. Havia percorrido 5,6 quilômetros. Tomei outro café, comi um bocadillo e parti para um dos trechos mais longos do caminho. A próxima parada seria Calzadilla de la Cueza, 17 quilômetros de estrada sem lugar para comer, dormir ou beber água. Um caminho de terra batida e com sol na cabeça.

A minha média, caminhando tranquilamente, era de aproximadamente 4 quilômetros por hora. Nas minhas contas, neste trecho, demoraria de 5 a 6 horas para chegar ao destino. Caminhei 10, 20, 30 minutos, 1 hora, 1 hora e meia, 2, 3 horas. Minhas costas doíam e minhas pernas pediam sossego. Foi quando resolvi parar, colocar a mochila no chão e olhar para trás.

Quando me virei, fiquei impressionado com quanta estrada havia ficado no caminho. A cidade já não podia mais ser vista. Neste momento, enchi-me de uma sensação de vitória, de crescimento, de evolução. Foi maravilhoso ver o quanto já havia percorrido.

Deste momento em diante, de hora em hora, eu parava, descarregava meus pesos, olhava para trás e, orgulhoso do que havia passado, estufava o peito e seguia. 400 quilômetros ainda esperavam por mim.

Após terminado o caminho, trouxe esta lição para a minha vida diária. Á noite, deitado na cama, fecho os meus olhos e busco lembranças do que fiz durante o dia. Sexta-feira à tarde, faço uma reunião com minha equipe e revemos o que aconteceu durante a semana. No fim do mês, pergunto-me o que fiz, onde estive e com quem passei meus dias. E para o final deste ano já estou preparando-me para um momento de reflexão. Descarregar o peso de minhas costas, olhar para trás, notar meu crescimento, minha evolução, estufar o peito e seguir adiante. Porque muitos quilômetros ainda esperam por mim.


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Rafael Baltresca

Rafael Baltresca é palestrante, facilitador e hipnólogo corporativo. Atua desde 2004 como conferencista dentro e fora do Brasil.
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