BalCast #27 - Planejamento financeiro - Parte 1 - Rafael Baltresca

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BalCast #27 – Planejamento financeiro – Parte 1

by  Rafael Baltresca

Tempo de leitura: 19min

Primeira publicação do ano de 2017!!! Que alegria poder retomar as gravações do BalCast e compartilhar também aqui muito conteúdo legal.

Para iniciarmos o ano bem e já dando aquela chacoalhada necessária, preparei um tema superinteressante… estou me referindo a planejamento financeiro. Para falar sobre isso, contei com a participação do meu amigo Álvaro Justen, o “Turicas”.

O Álvaro trabalha com desenvolvimento de softwares, dá aulas de programação, dentre outras atividades relacionadas à área de tecnologia, além de ser hipnotista e terapeuta. O Álvaro é aquele tipo de pessoa que, não importa o que faça, ele vai fazer bem. Posso dizer que tenho poucos amigos como o Álvaro, que é um cara que admiro.

Confira um pouco do que rolou em nosso bate-papo sobre planejamento financeiro.

RB: Como você faz para se planejar e não ficar refém… não vou nem completar a frase porque é de tudo, né? Quem não tem dinheiro acaba ficando refém do emprego, da condição social e de qualquer coisa. Quando se está apertado de grana, você faz o que tem que fazer, sempre com a corda no pescoço. Aliás, eu fiz uma conferência há 3 dias para mágicos e o tema da minha palestra era justamente este: business, negócios. Comecei a perceber que o público alvo (os mágicos) não se planeja, não tem ideia sobre a importância de você ter um caixa e de tudo isso. Só que não é só com mágicos… Parece que muita gente no Brasil se perde quando o assunto é finanças, que será, então, o nosso tema de hoje. Vamos lá, para o cara começar a pensar em dinheiro ele precisa ser milionário?

AJ: Não… A questão é a seguinte e você verá isso em qualquer lugar que tenha informações sobre finanças pessoais: a primeira coisa que você tem que pensar é que se você ganha x, não pode gastar x. Independente do padrão de vida que você leve, a quantidade de dinheiro que você eventualmente ganhe e obviamente isso pode variar ao longo dos meses do ano, né? Não é necessariamente uma coisa fixa, pode ser que surja um projeto novo no meio do ano e no seguinte já não tenha mais aquele projeto, enfim. Dependendo da forma como você trabalha isso pode variar, mas a questão é a seguinte e é igual à pessoa que quer emagrecer: se ela come mais do gasta de energia, vai engordar.

RB: E a matemática é tão simples, não é mesmo? Você não pode gastar mais do que você ganha. E quando a gente explica isso para as pessoas eles falam: “Vocês estão achando que eu sou o quê? Babaca, imbecil? É óbvio que eu sei disso.” Mas, na minha opinião, as pessoas não sabem o quanto gastam. Eu fiz uma brincadeira com um amigo uma vez, o Fernando, e falei: “Quanto você gasta por mês?” Ele falou que por volta de R$1.500 ou R$2.000. Falei, então, para o Fernando colocar tudo na ponta do lápis e ele fez esse exercício. Depois de um tempo, ele comentou que gastava o dobro. Então, as pessoas não sabem o quanto gastam… além de falar de IPVA e IPTU, que só vem uma vez por ano, dos presentes de final de ano, que também só vêm uma vez… e quando você soma tudo isso, o ano, e divide por 12, os olhos arregalam porque não fazemos ideia. Por que o brasileiro não se importa, não entende, não quer entender sobre finanças pessoais? Na sua opinião, de onde vem isso?

AJ: Eu acho que tem uma questão cultural (e isso eu até já conversei com alguns amigos meus que são de outros países) relacionada ao imediatismo. A gente, em geral, não pensa tanto a longo prazo. Para você ter uma saúde financeira, tem que pensar a longo prazo. Se você comprou um carro, vai ter que pagar o IPVA do carro todo ano, por mais que não seja no mês que vem, mas daqui um ano vai ter que pagar, então esteja preparado para isso. Eu acho que a gente não pensa muito a longo prazo. Financeiramente falando também (e isso não é mais cultural), eu acho que tem a questão que é de não aprendermos isso na escola. É uma coisa, em geral, negligenciada e até na faculdade, dependendo do curso de graduação que você faça, você não vai ter uma aula de finanças, a não ser que seja um curso, sei lá, de economia, algo mais especifico.

RB: Concordo com você. Eu fiz Engenharia Elétrica e fui aprender finanças quando eu me matriculei em um curso do SEBRAE, quando descobri que tinha um curso na própria Bolsa de Valores e que eles tinham cursos gratuitos, então EU tive que ir atrás. Realmente, eles negligenciam. A educação no Brasil é capenga, porque se dá muita atenção para análise sintática, para logaritmo, mas se esquece de explicar o básico de um empreendedorismo. Eu acho que viver é ser empreendedor, mesmo que você não tenha uma empresa, tem sua casa! E na sua casa você precisa ter lucro, tem custos… Empreendedorismo não tinha que ser para poucos. Imagino que tenha que ser um estudo para todo mundo.

AJ: Com relação à educação, já dando o meu palpite aqui, eu acho que a escola forma a galera para entrar na faculdade. Minha visão é essa: o estudo é muito mais acadêmico do que prático, digamos assim. É difícil você ver, por exemplo, uma escola aqui que tenha conhecimento mais prático. Você vai precisar, sei lá, aprender sobre finanças? Vamos colocar finanças na escola. Vai precisar saber como cuidar de uma casa? Porque eventualmente você vai morar em uma casa e vai precisar fazer coisas básicas, né? Você não vai contratar pessoas para fazer tudo ou pelo menos não deveria…

RB: Concordo plenamente. E o assunto de hoje é finanças, mas quando começa a falar de educação eu já começo a meter o pau, porque eu vejo uma necessidade urgente de uma reforma educacional. É ridículo o que eles ensinam… Eu vejo hoje: sou engenheiro formado e quanto de tudo o que aprendi na minha base não serviu para absolutamente nada para a minha faculdade e não serve para absolutamente nada para o que eu faço hoje em dia. Eu acredito sim que existam matérias que você precise passar, como entender um pouco da história do país, entender as questões geográficas, mas tantas coisas que você joga no lixo, né? E finanças é algo que o brasileiro tinha que saber porque, quando se pensa em uma nação, se pensa na economia e pensa num giro, no futuro de um país, você tem que pensar em pessoas que saibam investir, poupar, que vão comprar… Eu acho que a base de um país são as finanças e no Brasil não tem isso. A pessoa não te explica o básico que é você poupar um pouquinho mais do que você gasta e investir ao longo do tempo e todas essas coisas.

AJ: Inclusive, na minha visão, isso está muito ligado à qualidade de vida porque se a pessoa está, por exemplo, com um empréstimo e está sempre no vermelho, todos os meses, isso tem uma carga emocional bizarra que vai afetar a qualidade de vida da pessoa e eventualmente ela vai deixar de fazer coisas que ela poderia fazer, caso tivesse uma saúde financeira melhor. Eu acho que isso impacta todo o mundo.

RB: Eu comecei a aprender finanças pessoais quando eu era estagiário de uma empresa e o meu salário era de R$500,00. Quer dizer, o meu salário era curtinho, eu gastava próximo disso ou até um pouquinho mais do que isso, aí comecei a entender o tal do pulo do gato que é você se planejar. Bom, já demos paulada na educação, em um monte de gente… vamos ajudar quem está ouvindo e quer saber como fazer para dar um futuro melhor para a família, como fazer para daqui 5 ou 10 anos comprar um carro ou casa… O que ela tem que fazer a partir de agora? Já falamos um pouco sobre primeiro saber quanto a gente gasta. Faz sentido começar por aí?

AJ: Acho que sim. Inclusive, já que estamos falando sobre isso, acho que a ideia aqui é meio que jogar o tema para que a galera possa se interessar por isso, mas o trabalho não deve acabar por aqui. Nem eu nem você somos consultores financeiros e acho que o pessoal, fica como dever de casa, já deve ir procurando um livro, tem um monte de canal no YouTube que fala sobre isso, inclusive canal de corretoras de valores, enfim. Tem um monte de material disponível e fica como dever de casa procurar isso. Mas vamos lá… Eu começaria por isso.

Regra nº1 (pode parecer bobo, mas não é): você tem que gastar menos do que você ganha. Então, se você ganha R$3.000,00, não pode viver gastando isso porque eventualmente vão acontecer surpresas ou acontecer, enfim, oportunidades e se você não tiver uma grana guardada, não vai conseguir lidar com essa surpresa ou aproveitar essa oportunidade. Acho que a primeira regra é essa e, para conseguir isso, você tem que monitorar. Quando eu comecei este processo de educação financeira, minha conta estava sempre no vermelho. Eu falei “vamos parar e aprender isso aqui, fazer melhor”. Aí eu comecei a anotar tudo! Se eu tomasse um cafezinho na padaria (e hoje eu nem tomo mais porque, em geral, as padarias têm café bem ruim), eu anotava… R$1,00 que fosse. Qualquer coisa, eu anotava. Isso é muito importante.

Para quem está começando, principalmente, outra dica interessante é não usar o cartão de crédito sempre. Por quê? Tem até alguns estudos que mostram que, quando a gente paga no cartão, seja no credito ou no débito, temos uma sensação de perda menor. Quando você tira o dinheiro da carteira e você vê que está diminuindo aquele montante, você se sente pior porque está vendo o dinheiro sair literalmente. Para quem está começando então e não tem ainda muito controle, muita organização, eu sugiro diminuir um pouco o cartão de crédito. Tem muita gente que, quando chega a fatura do cartão, tem uma surpresa. Então, pelo menos no começo, eu sugiro isso. Eu uso bastante o cartão de crédito, mas consegui me planejar para que eu sempre pague a fatura completa e consigo ir rastreando cada gasto que estou fazendo pelo aplicativo no celular. Mas, até você chegar neste nível para que o cartão não seja o problema, acho legal começar reduzindo.

RB: Bom, quero dar uma completada e achei bem legal que você falou que quem não gosta de uma caderneta, mas quer pensar em algo mais informatizado, eu uso um sistema chamado ZeroPaper que é gratuito. Eles te cobram coisa de R$30,00 quando você usa com muita gente, quando é para uma empresa, coisa do tipo. Mas, para usar na sua casa, você pode ter todas as funcionalidades dele sem pagar nada. Você conhece algum outro legal?

AJ: Para celular mesmo, tem alguns que até já integram com cartão de crédito.. tem o Guia Bolso que é bastante conhecido. Eu, particularmente, uso outro sistema só no computador. Acabei preferindo não usar no celular porque, como sou programador também eu gosto de brincar com programação, dados…

RB: Você faz os seus próprios sistemas. Você que me vê e não é hacker, como meu amigo que constrói suas próprias coisas, se é um mortal como eu, esse sisteminha é bem legal. Se colocar lá no Google “sistemas financeiros” vai achar muita coisa legal. O ZeroPaper eu posso te falar que é grátis. E ele é legal pelo seguinte: você vai dividindo o tipo de gasto. Quando você coloca, por exemplo, um café, coloca ao lado “pessoal”, gasolina, pode colocar ao lado “carro” e, no final do mês ou do ano, você consegue saber para onde está indo o seu maior gasto. O ZeroPaper, ou qualquer sistema desse, é legal  porque, depois de 3 ou 4 meses, você soma tudo o que você gastou, faz uma média e você sabe exatamente quando você está gastando por mês. Outra coisa que você falou que eu achei interessante é que, quando você paga no cartão crédito (primeiro, não usar cartão, mas se você precisa para um parcelamento, sei lá), faça uma planilha no Excel ou então na sua caderneta mesmo. Se você fez 10 parcelas de R$100, coloque nos meses já quanto está saindo deste mês, porque com isso você consegue fazer uma previsão de quando será o seu custo. Isso é mágico porque se você começa o mês olhando que metade do seu faturamento já era, já está fadado ao ralo, já sabe que pode gastar menos. É tão simples este controle, mas parece que as pessoas não fazem meio que com medo de saber o que pode acontecer… é como se fosse um tabu tão grande falar de dinheiro, pensar em dinheiro que as pessoas preferem se distanciar disso, pensando agora de uma forma comportamental. Se eu me distancio, eu não vejo, não sofro. Como você já tinha falado do imediatismo, seria como “hoje eu não vou sofrer”. Só que essa pessoa acaba sofrendo daqui um ano ou algum tempo. Acho que escrever é o primeiro passo.

AJ: A dica que eu dou é a seguinte: comece a fazer. Não importa se você vai anotar no papel, em uma planilha, se vai usar um aplicativo… comece! Porque, a partir do momento que você começou, você vai evoluindo com o tempo. Eu, por exemplo, comecei com uma planilha muito simples e fui melhorando, colocando um monte de fórmulas para automatizar o processo… Eventualmente, a planilha já não deu mais conta porque comecei a fazer alguns projetos em que eu recebo em outras moedas, enfim. Fica um pouco difícil lidar com isso, com questão de câmbio e tal. Então passei para este outro sistema que é o que eu uso hoje. Até se tiver alguém mais hacker, o nome é Ledger, um software feito para o terminal, não tem interface gráfica e já vai contabilizando, fazendo um monte de coisa legal, mas é meio que feito para programadores. Caso tenha algum ouvindo, fica a sugestão.

Uma coisa interessante que você falou sobre a questão de ter uma média do quanto você gasta, porque é importante entender também e que para mim fez muita diferença entender isso, é o seguinte: os nossos gastos são sazonais. Eu vou gastar um valor X em janeiro não significa que eu vou gastar a mesma coisa em todos os meses, porque em janeiro, sei lá, para quem tem filho, vai ter que pagar a matricula no colégio das crianças, tem IPVA, depois o IPTU, no fim do ano tem as festas e os presentes, se você gosta de viajar e vai fazer isso durante o inverno, em julho, tem o gasto com a viagem… cada mês é diferente. O que eu sugiro fazer não é usar o ciclo mensal, mas usar o ciclo anual. Por exemplo, todo o meu planejamento financeiro, eu não faço para o próximo mês; eu planejo o ano inteiro. Porque tem coisas que eu sei que vão acontecer naquele ano e eu já tenho que contabilizar o gasto.

É o que você falou de já entrar o mês com uma parte comprometida, mas esse comprometido pode não ser ruim se for planejado. Por exemplo, todo ano eu vou em um congresso chamado FISL (Fórum Internacional de Software Livre) que acontece em Porto Alegre e eu já fui a 10 edições, 10 anos seguidos, e sei que este ano eu vou também. Acontece em julho… mas eu já jogo em minha planilha para eu saber que em julho tem um gasto de passagem… óbvio que eu não sei quando será a passagem, mas não vai ser uma variação muito grande.

RB: É um chute, né? Você sabe que vai custar em R$500,00 e R$700,00, o hotel entre R$150 e R$200 por dia… você dá um chutão e isso não te dá muitas surpresas no final.

AJ: Sim, porque já estou pronto para aquilo, né? Se for um pouco a mais, tem aquela questão: se estou gastando menos do que eu ganho, já tem um pouquinho que sobra. Então, mesmo as surpresas não são tão surpreendentes assim porque já estou preparado para aquilo, já tem uma gordurinha ali. Outra coisa interessante é que eu fazer um planejamento não significa que vou conseguir seguir à risca, né? Eventualmente surgem oportunidade, surpresas e coisas assim que eu posso gastar mais ou menos dependendo do mês. Mas, se eu tenho um planejamento mínimo, eu já consigo ter uma noção do que vai acontecer. O legal disso é que eu consigo me planejar e ver naquela planilha exatamente o que uma ação minha vai compactar daqui um ano. Por exemplo, o Baltresca lançou uma turma nova do curso dele de hipnose e quero fazer o curso de hipnose com o Baltresca. O que significa financeiramente para mim fazer o curso de hipnose com o Baltresca? Talvez, no final do ano, eu não possa fazer aquela viagem? Ou significa que de alguma forma eu tenha que trabalhar um pouquinho mais para poder conseguir essa grana até o mês tal? Então, eu consigo ver o impacto e acho que é isso que falta um pouquinho e é por isso também que as pessoas gastam mais do que deveriam… porque não veem o impacto no futuro, só no presente. Você tirou o dinheiro da carteira e vê que tá saindo ali agora, mas e o mês que vem? Você comprou uma coisa parcelada, sei lá, em 12x. Você está pensando que lá em dezembro vai precisar ter um pouco mais de dinheiro para comprar o presente de Natal do seu filho e aquela parcela que está ali vai comer uma parte do seu dinheiro?

RB: Faz sentido mesmo. Seria meio que tirar da cabeça e colocar no papel, dar forma para a coisa.

Bom, a minha conversa com o Álvaro não parou por aqui, mas você pode conferir tudo o que rolou em nosso bate-papo assistindo ao vídeo que está no topo da página.

Também vou deixar aqui alguns links para você acessar e conhecer mais sobre o trabalho do Álvaro:

Site: http://turicas.info/
Twitter: https://twitter.com/turicas

YouTube:
https://youtube.com/c/PythonicCafe (canal de ensino de programação)
https://youtube.com/turicas (canal pessoal)

Semana que vem, teremos a segunda parte da entrevista sobre planejamento financeiro com Álvaro Justen. Aguarde… 😉

 

Rafael Baltresca

Rafael Baltresca é palestrante, facilitador e hipnólogo corporativo. Atua desde 2004 como conferencista dentro e fora do Brasil.
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