BalCast #23 - Gostar do que faz - Rafael Baltresca

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BalCast #23 – Gostar do que faz

by  Rafael Baltresca

Tempo de leitura: 9min

“Eu sei o preço do sucesso: dedicação, trabalho duro, e uma incessante devoção às coisas que você quer ver acontecer.” – Frank Lloyd Wright

Há algumas semanas, eu estava no aeroporto de Congonhas e aconteceu algo atípico comigo… Faltavam em torno de 35 ou 40min para abrirem o portão de embarque e eu pegar o voo, então resolvi almoçar, pois achei que daria tempo para isso. Fui até o Giraffas,  um restaurante fast food que tem no aeroporto, e escolhi um prato relativamente rápido e simples: um peixinho com legumes e purê, um suco de laranja e nada mais. Fui até o caixa, paguei, fiz o meu pedido e aguardei. Bom, 40 minutos para o embarque… estava tranquilo.

Fiquei esperando um pouquinho, cerca de 5 ou 10 minutos… que se tornaram 15… e nada da comida… depois 20 minutos… Resolvi ir até o balcão e perguntei para um rapaz: “Por favor, meu pedido vai demorar muito ainda? Estou com um pouquinho de pressa por conta do avião…” O rapaz pediu-me para aguardar alguns minutos que já verificaria a informação. Quando retornou, disse que meu prato seria montado naquela hora. Perguntei o que significava aquilo (“ser montado naquela hora”), se iriam começar a preparar ainda… Ele respondeu “Não o peixe está quase pronto, ainda precisa sair o acompanhamento, acho que daqui uns 15 minutinhos ele já sai.”

Bom, olhei em meu relógio e em 15 minutinhos eu iria perder o voo, pois, além daqueles 15 para sair o prato, eu obviamente teria que parar por mais alguns minutos para comer.

Falei ao rapaz: “Tudo bem se eu pegar esse pedido daqui uns dias? Eu vou viajar agora e devo voltar daqui uns 2 ou 3 dias… Tudo bem se eu comer depois?” Ele disse que era tranquilo, bastava eu guardar a nota fiscal e, quando voltasse, falar com ele novamente, pois deixaria meu prato prontinho na hora. Fiquei feliz! Até atribui um ponto para o Giraffas.

Bom, segui para o meu destino, que na ocasião era Palmas, fiz a palestra e fiquei mais um tempinho na cidade, voltando depois de mais de 4 dias. Eu estava de volta e com tempo! Pensei comigo: “Hoje estou tranquilo, já marquei o táxi para mais tarde, vou sentar e almoçar tranquilamente e merecidamente depois de uns dias de trabalho e tarefas.”

Cheguei para aquele rapaz do Giraffas que me atendeu na ida e falei: “Oi, você lembra de mim?” Ele respondeu que não lembrava muito bem e perguntou do que se tratava. Expliquei-lhe sobre o caso para relembrá-lo e ele comentou: “Ah, lembro sim, é uma tilápia que você pediu, né?” Era isso sim e achei até estranho ele lembrar do meu prato por ter tanta gente no aeroporto, mas confirmei o pedido e ele disse para deixar com ele, apenas solicitando a nota fiscal, que estava comigo.

Perfeito! Sentei, abri o meu computador, abri um livro, abri a minha mente para o mundo e relaxei. Imaginei que logo o meu prato chegaria… talvez em 20, 30, 40 minutos… Só sei que eu não estava nem aí! Permanecia tranquilão aguardando a minha comida, que eu iria comer com aquela sensação de missão cumprida, sabe? Quando você faz um trabalho bem feito e só quer relaxar… Era mais ou menos o meu sentimento naquele momento.

Durante o tempo que passou enquanto minha comida não vinha (uns 25 ou 30min), vi coisas que não gostaria de ter visto na fila do Giraffas. Vi pessoas reclamando que a carne ou peixe vieram errados, que o suco veio diferente, pois tinham pedido de uva e mandaram de laranja… E, ao final, antes de chegar o meu pedido, presenciei uma coisa grotesca: o próprio rapaz que estava me atendendo falou para uma moça que estava na cozinha: “Fulana, os pratos estão vindo com as bordas sujas.” A tal moça respondeu de dentro da cozinha: “Eu não posso fazer nada, não posso limpar com o pano senão vou acabar sujando o prato!”  O rapaz continuou: “Por que você não manda então o prato sem a bordinha suja?” Mas a moça simplesmente respondeu “porque não dá”.

Neste ponto, onde percebo que o problema ultrapassa a reclamação do cliente e começa a haver reclamação interna, começo a me perguntar o que estaria acontecendo naquele lugar. Contudo, continuei tranquilão até o meu prato chegar, depois de algumas dezenas de minutos: entregaram-me um purê com gosto de água batida com farinha, os legumes frios… O peixe até estava “ok”, mas não adianta… Eu sou inquieto e tenho essa mania de ficar pensando e repensando e, somando tudo isso, os clientes reclamando, os próprios trabalhadores reclamando, a moça que deveria ajudar reclama em cima da reclamação do cliente… no meio dessa confusão toda, comecei a  fazer algumas reflexões.

Estava já no táxi (eu volto quase sempre com o Everton, meu amigo e com quem trabalho há um tempão) e passei a conversar sobre o que tinha acontecido: “Everton, o que você acha que falta para a pessoa se tocar e fazer a coisa com paixão, com tesão, sabe?” E nisso comecei a pensar também no cliente, no todo… o que estaria faltando?

O Everton respondeu-me da seguinte maneira: “Olha, Rafael, você tem que pensar também que muita gente só trabalha porque precisa do dinheiro… não está lá porque gosta.” Eu tive que discordar dele… “Evertão, você me desculpa, mas eu discordo completamente de você. Não é muita gente não que trabalha por dinheiro. TODO MUNDO trabalha porque precisa do dinheiro!

Eu não imagino uma pessoa que diga “Ah, estou com a vida ganha, está tudo maravilhoso, tenho milhões no banco, mas, como não tenho nada para fazer, acho que vou trabalhar.” Não tem, é difícil! Todo mundo trabalha porque precisa de dinheiro ou porque precisa de alguma outra coisa. Só que o ponto não é esse… O ponto é o seguinte: ou você faz o que gosta ou você precisa aprender a gostar do que faz. Senão, meu amigo, a sua vida será um eterno sofrimento.

Vamos por partes… Fazer o que gosta, o que sempre te deu tesão, que você sempre adorou, é uma benção, é ganhar na Sena. Infelizmente, são poucos os que podem trabalhar com o que sempre sonharam. É raro ver uma pessoa que faz o que sempre gostou de fazer.

Olha, eu sou um apoiador fervoroso da ideia de as pessoas traçarem um plano de vida para trabalharem justamente como e com o que gostam. Mesmo sendo uma exceção e algo raro, eu batalho para fazer isso, fazer o que gosto, e quero que as pessoas também o façam. Porque aí é uma maravilha, né? Você não estará jogando 90 ou 100 anos da sua vida no lixo. A gente passa, às vezes, mais tempo trabalhando do que vivendo com os amigos e com a família. Então, que façamos o que gostamos!

Enquanto você não consegue alcançar isso, que você aprenda a gostar do que faz. É como conseguir fazer um suco gostoso com limão azedo. Sei que não é fácil e nem sempre é óbvio, mas não é impossível. Se você trabalha em uma repartição pública, se trabalha para um empresário, com qualquer coisa que seja, dê um jeito de gostar pelo menos de uma grande parte do que você faz.

Bom, se você me disser que é impossível gostar do que você tem que fazer, então que tenha a coragem para lutar por um outro trabalho, para conseguir algo de que você goste de verdade, ou que você consiga aprender a gostar.

Essa é a grande sacada! Eu me coço tentando entender para quê viver um suplício chamado trabalho, se acabar trabalhando com algo de que você não gosta… Com isso, meu caro, a sua empresa só perde clientes. O seu cliente também só perde tempo e você perde a coisa mais preciosa: a sua vida.

Última consideração sobre toda essa experiência: eles não reparam que a gente repara… mas a gente repara! O que eu quero dizer com isso? Simplesmente que eu nunca mais na minha vida como no Giraffas! Mas nunca mais mesmo. E, para me convencer, vai dar um grande trabalho…

Não tenho como terminar este relato sem recobrar aquela frase célebre do Confúcio que diz o seguinte: “Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida.

Quer saber um pouco mais sobre o que eu gosto de fazer, sobre o meu trabalho como palestrante motivacional? É só clicar aqui.

Rafael Baltresca

Rafael Baltresca é palestrante, facilitador e hipnólogo corporativo. Atua desde 2004 como conferencista dentro e fora do Brasil.
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