BalCast #22 - O dia em que eu renasci... - Rafael Baltresca

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BalCast #22 – O dia em que eu renasci…

by  Rafael Baltresca

Tempo de leitura: 14min

Renascer é sentir o que nunca foi vivido.” – Bruninho Fé

Na semana retrasada, tive uma experiência única… interessante… e que, sem dúvidas, trouxe muitas reflexões para a minha vida. Reflexões estas que aconteceram naquele exato momento e outras tantas que certamente ainda virão.

A história que contarei hoje aconteceu comigo de verdade, não é de nenhum filme de ficção, e o meu cenário foi o Jalapão.

Fui fazer uma palestra em Palmas, linda cidade de Tocantins, e me lembrei de algo que haviam me falado há muito tempo: “Rafa, quando você voltar para Palmas, vá para o Jalapão. É um lugar especial, lindo!” Se você não conhece o Parque Estadual do Jalapão, trata-se de uma reserva ecológica que fica pertinho de Palmas, há mais ou menos uns 250/300km de lá. Mas já te adianto que não é muito fácil de chegar no Jalapão… Contudo, se você quiser ver lindas cachoeiras, mares maravilhosos, fervedouros, você precisa visitar este lugar. E precisa ter paciência, porque a estrada não é fácil. Acho que levamos, minha mulher Patricia e eu, entre 1h ou 1h20 para percorrermos 30km, ou seja, a estrada não está nada boa.

Bom, depois de horas e mais horas, chegamos até a pequena cidade de Mateiros, sentindo-nos aptos para desbravar o Parque Estadual do Jalapão, as dunas e outras tantas coisas. Não é uma maravilha? Estávamos no primeiro dia de passeio, fomos até um rafting que eu tinha muita vontade de conhecer, desci aquelas cachoeiras e aquele rio lindos demais, conheci a Cachoeira da Velha… Uma maravilha!

Depois disso tudo, o guia que nos acompanhava perguntou-nos: “Vocês não querem dar uma paradinha em um rio para dar uma recarregada nas energias? Porque depois vamos ver as dunas…”

Opa! Estava minha mulher, o guia e eu apenas… Por quê não? O guia deixou a gente, então, num trechinho do Rio Novo, voltou para o jipe e ficamos curtindo por mais ou menos 15 ou 20min neste rio. A vida estava simplesmente perfeita! Eu, em pleno sábado, podendo curtir um lugar maravilhoso daqueles.

Foi então que uma coisa inesperada aconteceu… Desde os meus 6 anos de idade, ou seja, há 30 anos, eu nado, não tenho medo de rio, não tenho medo de mar, sempre soube me virar muito bem na água. Por isso, falei para a minha mulher: “Vou dar umas nadadas e já volto”.  A cachoeira estava distante da gente cerca de 15 ou 20m. Estávamos numa “prainha”, digamos assim, com um rio super lentinho, sem barulho, praticamente sem nada… uma banheira! Ficamos por um tempo ali naquela beirinha de rio batendo papo, eu e minha mulher, até que resolvi nadar um pouco. Imaginei que fosse dar umas 8 ou 10 braçadas até chegar num local que eu consideraria quase perigoso, onde permaneceria, pois obviamente não iria me arriscar além disso. Restariam apenas 7m de distância da queda da cachoeira.

Porém, eu estava enganado… Dei uma braçada e já na segunda comecei a sentir uma correnteza que vinha por baixo. Interessante que acima do rio você não via essa correnteza, mas, por baixo, ela já começou a me puxar. Tentei dar outra braçada em direção à minha mulher, que me esperava, e não consegui. A correnteza me puxou mais ainda.

A partir deste momento, eu perdi completamente o controle; nunca tinha me visto numa situação dessas!! Comecei a me debater e a nadar, nadar contra a correnteza…  Simplesmente impossível!! Ela começou a me jogar cada vez mais para a cachoeira e, em 3 ou 4 segundos, eu já me via mais perto da queda do que do lugar onde a minha mulher estava.

Comecei a gritar “Patricia, Patricia, socorro!!”, completamente perdido! Naquele momento, eu estava certo de que estava há alguns segundos da minha morte… Não sei se foi uma obra divina, não sei se foi o acaso, se foi sorte ou o que aconteceu, mas sei que bati meu pé em uma pedra e percebi que ali daria pé pra mim. Tentei segurar nela, mas não consegui porque a correnteza levou-me ainda mais. Coloquei a mão para apalpar e achei uma espécie de ponta de pedra. Eu devia estar a mais ou menos uns 3 ou 4m do chão; obviamente não dava pé, mas tinha essa ponta de pedra em que me segurei com a mão esquerda e, com a direita, eu tentava achar outras pedras, mas não conseguia.

Para você entender, eu estava a 1 ou 2m no máximo da queda da cachoeira, quase no meio dela, e, como o rio estava muito forte, fazia força com minha mão esquerda, praticamente sem conseguir me segurar. O braço já estava doendo e eu acenava para minha esposa dizendo “Patty, não venha pra cá!”. Lembro que o primeiro instinto dela foi de nadar até mim, mas gritava para não ir, pois tinha certeza de que se ela fosse ou ficaria presa comigo ou iria para a cachoeira.

Não sabia o que fazer e me vi numa situação que eu nunca imaginei na vida… estava lá me debatendo, a mão esquerda segurando forte e pensando o que eu poderia fazer para sair daquele lugar. A primeira estratégia que era nadar de volta estava simplesmente descartada porque a correnteza estava muito forte e meu braço doendo muito. A segunda estratégia seria tentar nadar para a direita, onde havia um rio um pouquinho mais calmo. O meu medo era de soltar da pedra para dar o impulso e antes disso eu ser jogado para a cachoeira.

Minha mente estava com o seguinte dilema: fico parado ou tento ir para a direita, onde está mais calmo (mas com medo ainda de ser jogado)?

Gritei, gritei, falei “Patty, peça ajuda, chame o guia, veja se ele tem uma corda, não sei… fico aqui aguentando.” De novo, com minha mão esquerda ficava aguentando na ponta dessa pedra e com a mão direita eu abanava a minha cabeça, porque estava em um lugar repleto de mosquitões (que eles chamam na região de mutuca); parece um mosquito de cavalo com um ferrão muito forte. Meus pés estavam praticamente sendo levados pelo rio… Tudo isso durou, na minha cabeça, mais ou menos uns 5min ou um pouquinho mais.

Quando o guia chegou, trazia uma corda e eu gritava para ele: “Não venha para cá, não entre no rio.” Eu tinha certeza de que ele iria junto comigo. O homem, porém, dizia-me para ficar tranquilo pois conhecia aquele lugar, sabia que dava pé. Ele estava a 7m ou um pouquinho menos de mim, jogou a corda, tentei pegar, mas não consegui, pois ela passou rápido demais. Ele jogou de novo e talvez na terceira ou quarta vez eu consegui pegar a corda, dando uma espécie de laço com ela em minha mão, pois tinha um grande medo daquilo soltar. O guia dizia que estava seguro e preso e começou a me puxar. Só que eu puxava junto, fazendo uma espécie de “cabo de guerra”. Consegui avançar um pouco até sentir que meus pés já podiam encostar nas pedras. O homem me puxou e eu finalmente saí do rio.

Naquele momento, a minha vida deu uma balançada… Eu não sabia se comemorava, se ia para o carro, se chorava, se eu abraçava a minha mulher… eu não sabia. Comecei a falar para irmos embora, peguei minha mulher e juntos fomos para o carro. Fechei a porta e…. respirei! Eu nunca tinha passado tão perto da morte. A morte nunca tinha batido à minha porta de uma forma tão intensa, tão inesperada. É interessante como a gente acaba aprendendo com as coisas mais complexas da vida. Os aprendizados são mais puros e mais fortes!

Bom, nesta publicação, quero compartilhar também, além da história que já contei, algumas poucas lições que eu tive com tudo isso.

  • A primeira lição é que talvez eu devesse viver mais intensamente e aproveitar o tempo com mais inteligência. A vida é muito mais curta do que a gente imagina. Engraçado como nós temos essa ilusão da imortalidade, mas o inesperado, que pode ser um acidente, uma enfermidade ou um acaso do destino, pode levar nossa vida em apenas um segundo.

Depois de 2 ou 3 dias do passeio no Jalapão, eu estava abraçado com minha mulher e ela me disse uma coisa muito interessante e muito forte: “Rafa, você está sentindo o meu coração bater? Então, essa maquininha dentro do meu peito um dia vai parar. Você está sentindo o seu coração bater? Essa máquina também vai parar um dia. Já se deu conta disso?” A gente não se dá conta de como a vida é rápida, efêmera, do quanto ela voa. Hoje eu entendo um pouco mais que o tempo é o bem mais valioso que nós temos. Não é o dinheiro, não é um carro, não é nada! É o tempo… um bem que vai embora e não volta mais. Desperdiçar nosso tempo com fofocas, com intrigas, bobeiras, ou como muitos que jogam horas e horas de seus dias fora no Facebook, no Twitter, com tanta besteira.. Sabe, isso é jogar sim nossa vida fora! Saber usar o tempo é com total certeza saber viver.

  • O segundo ponto, a segunda lição que eu tive nesse dia em que eu quase morri, foi começar a respeitar a natureza de uma forma mais inteligente. Respeitar a natureza deveria ser prioridade em nossas vidas e penso nisso com dois sentidos: primeiro, precisamos nos colocar em nosso lugar, entender o nosso limite, saber que um mar, um rio, um vento forte pode ser muito maior do que a gente imagina. Somos muito menores do que a força dessa natureza toda! Então, devemos respeitar no sentido de nos colocarmos neste lugar de criaturas frágeis. Talvez, lembrando-nos de nossa pequenez, possamos ser mais inteligentes e humildes, simplesmente os pequenos seres dessa coisa chamada Universo. O segundo sentido de se respeitar a natureza é entendendo que a Terra devolve o que fazemos com ela. A bituca no chão, as construções de prédios sem limites, essa poluição maluca e desenfreada, tudo isso um dia volta para a gente. Sustentabilidade é muito mais do que uma palavrinha bonita e que está na moda. É ser inteligente para entender que ou a gente cria um mundo que se sustenta ou todo mundo vai morrer. Nossos filhos, netos e nós mesmos também… devemos respeitar a natureza.
  • A terceira reflexão é sobre a confiança. Como é importante a gente confiar… Eu estava, naquele dia, nas mãos de uma pessoa que eu não conhecia. Estávamos juntos havia menos de um dia e foi este guia turístico que naquele momento disse “venha comigo”… Como é importante a gente confiar, saber que a nossa vida está nas mãos de alguém. Importante também é que as pessoas confiem na gente. Talvez confiança seja a grande palavra para essa crise que estamos vivendo agora, o combustível para as empresas crescerem, para as pessoas serem felizes, nossos negócios e vidas de maneira geral fluírem melhor. Talvez, a necessidade seja mesmo de mais confiança nestes dois sentidos: confiar e fazer com que as pessoas confiem na gente.
  • A quarta reflexão que passa na cabeça de alguém que se vê numa quase tragédia é começar a filtrar o que realmente importa na vida. Quando eu estava lá nas pedras, a última coisa que passou pela cabeça foi o meu trabalho, responder a um e-mail, dinheiro, carro, um sucesso profissional, enfim. E não estou dizendo que isso não é importante! Mas, certamente, é menos importante do que a família, os amigos, as pessoas que amamos e que deveríamos colocar em primeiro lugar. Minha mulher, que estava do outro lado do rio, era a única coisa que eu temia perder naquele momento. Devemos filtrar o que realmente importa na vida.

Daquele dia em diante, aprendi a valorizar um pouco mais um cafezinho com os amigos, umas boas risadas com a família… Acho que este foi um baita aprendizado, por mais simples que pareça. Estou, no momento em que escrevo isso, em Brasília, dentro de um quarto de hotel. Minha mulher está me aguardando, fazendo as coisas dela ali ao lado, e um amigo vai passar daqui a pouco para almoçarmos. Tenho certeza que o papo com este amigo e o almoço que nós três teremos juntos será algo de que irei me lembrar daqui 70 anos. Tenho certeza absoluta de que viver com amigos, com a família é entender o que realmente importa e que vai fazer toda a diferença no meu último dia de vida.

  • O quinto e último item é: agradeça! Isso é algo que eu repito para mim a todo momento desde aquele dia… “Rafa, agradeça as pedras no caminho… pois essas pedras que podem te machucar, são as que certamente te ajudarão a renascer.”

Termino com uma frase da Martha Medeiros que diz o seguinte: “Hoje sei que dá para renascer várias vezes nessa mesma vida. Basta desaprender o receio de mudar!

Mudança é renascimento. Agradeço a Deus pelo meu renascimento, agradeço a natureza por me permitir ser uma nova pessoa… uma pessoa mudada.

 

>> Quer conhecer um pouco mais sobre o meu trabalho? Clique aqui para conferir um trechinho da minha palestra motivacional.

  • Thiago Mota Soares

    Que experiência eihn?! Eu já vivi algo parecido, é assustador.
    Ótimas lições…forte abraço!

    • Muito assustador, Thiago! Você deve saber então o que é…
      Mas a lição, é para toda a vida! Um grande abraço.

Rafael Baltresca

Rafael Baltresca é palestrante, facilitador e hipnólogo corporativo. Atua desde 2004 como conferencista dentro e fora do Brasil.
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