BalCast #10 - Perfeccionismo - Rafael Baltresca

INSIGHTS

BalCast #10 – Perfeccionismo

by  Rafael Baltresca

Tempo de  leitura: 6 a 7min

“O perfeccionismo é um perigoso estado de espírito em um mundo imperfeito.” (Robert Hillyer)

E você, gosta das coisas perfeitas?

Hoje, aconteceram algumas coisas comigo que me fizeram lembrar aquelas saudosas entrevistas de emprego, onde o entrevistador pergunta “qual é o seu maior defeito?”. Muitas pessoas costumam responder a essa pergunta falando que o maior defeito delas é serem perfeccionistas. Claro que isso vira chacota, pois ser perfeccionista não é um defeito, mas uma virtude. Ser perfeccionista é querer fazer sempre o melhor, exigir o melhor, é ser incrível no que se faz e isso é uma virtude… Não é? Será mesmo que ser perfeccionista é uma virtude?

Bom, deixe-me falar um pouquinho de mim no que diz respeito a ser ou não perfeccionista. Eu sou do tipo de perfeccionista que parece ter “nascido” com a coisa: eu faço, refaço, eu faço de novo, até ficar incrível. Digo isso, pois conheço muitos amigos que deixam de fazer algo porque acham que nunca vai ficar bom. É aquele tipo de perfeccionista que simplesmente fica travado pelo suposto pensamento de que algo pode não ficar perfeito.

Eu, porém, sou o tipo de cara (e falo com a maior clareza do mundo) que não quer fazer nada meia boca. E mesmo que eu faça algo meia boca a princípio, da próxima vez em que eu o fizer será melhor, e depois, na vez seguinte, melhor ainda e assim por diante. Em tudo! Eu cresci assim, fui educado assim, sou um cara perfeccionista. Não significa que tudo o que eu faço é maravilhoso; o perfeccionismo é mais uma atitude interna de querer sempre o melhor. Por exemplo, quando o assunto é pontualidade: se marcam comigo às 8h, é às 8h e não 8h15 ou 8h20 e ponto!

Agora que você já sabe um pouco mais sobre mim, vou contar duas historinhas que aconteceram hoje, no dia em que descrevo este relato:

História 1

Minha mulher e eu deixamos o carro dela na funilaria, há mais um menos uma semana, para ser polido e tirar alguns arranhões da parte dianteira. Mostramos ao funcionário os arranhões, os riscos, o que precisava ser pintado e tudo o mais. Ok, deixamos lá na funilaria um carro que é novo, porém que estava com a parte da frente arranhada.

Voltamos ao estabelecimento hoje, às 8h, e o que nos esperava? Um carro bonitinho, sem risco, pintadinho no lugar em que deveria, mas na parte traseira dele… um baita risco! E com duas batidinhas fundas que não estavam lá antes!!

Chamei o dono da funilaria e falei: “Olha, o senhor lembra que eu trouxe o carro e ele [um dos funcionários] fez até a checagem…” O dono respondeu-me afirmativamente e o levei, então, para ver o que tinha acontecido. Quando ele viu os riscos traseiros, sabia que o carro não estava assim antes, pois ele mesmo tinha feito uma chek-list. Contudo, a resposta dele pra mim foi simplesmente: “Ah, é normal. Alguém aqui da funilaria deve ter batido.”

Como assim “é normal”? Eu deixei o carro para arrumar e voltou pior! Não faz sentido isso.

História 2

Após resolver os problemas com a funilaria (para onde o carro retornará e espero que não volte pior desta vez), fui para o meu escritório aguardar o pessoal da loja em que eu havia comprado um móvel e pedido para entregarem lá às 9h. Cheguei ao local faltando 5 minutos para as 9h, porém ninguém estava lá. Nem às 9h, 9h15… Somente às 10h, quase 10h15 na verdade, eu recebo este pessoal para a entrega dos móveis. Quando pergunto se não havíamos combinado às 9h a resposta que ouço é: “Não falamos às 9h, mas sim POR VOLTA das 9h.” Para mim, por volta das 9h seria 9h05, 9h08, 9h12 e não 10h15!

Bom, eles entraram, começaram a colocar os móveis e, quando vejo, uma baita lascada na parede! Ouvi ainda do montador que ele não tinha visto a parede, pois de fato estava de costas para ela. Mas sabe quando o sangue começa a subir? Pois bem…

Em seguida, olho para o móvel e percebo que ele veio lascado, com uma rodinha menor e que, por isso, o móvel estava pendendo. O pior é que as respostas que eu continuava ouvindo deles eram do tipo “é assim mesmo”, “a gente dá um jeito”, “vamos ver o que a gente faz”.

Olha, hoje eu já não sei se ser perfeccionista é uma virtude ou um defeito, mas estou tendendo a dizer que é um defeito. Isso porque, quando somos perfeccionistas, além de querermos fazer as coisas da melhor forma possível, também sofremos, pois esperamos que as coisas venham até nós e nos sejam entregues de uma forma perfeita! E quando falo em perfeito nem me refiro a algo maravilhoso, incrível, surpreendente. Pelo contrário, porque a surpresa pressupõe uma expectativa. Então, quando você entrega algo além da expectativa, você surpreende. Mas não estamos nem falando disso. Nós, perfeccionistas, estamos gritando pelo combinado apenas. É só fazer como tínhamos combinado e apenas isso!!

De fato, eu não sei… Não tenho filhos ainda, mas fico questionando-me se devo educá-los, quando os tiver, para que sejam exigentes , perfeccionistas, pontuais ou não. Talvez, a melhor forma de se viver seja a tal de “deixo a vida me levar” porque assim a gente não sofre tanto. Quem não espera, não tem altas expectativas e fica tranquilo com o que lhe é entregue.

Eu estava olhando na internet alguns assuntos e textos sobre perfeccionismo e encontrei uma citação bem interessante da Shakira, que, independente de você gostar ou não da música dela, é uma super artista. Basta olhar os clipes dela: são super bem produzidos e bem dirigidos. A frase que a Shakira escreve sobre este assunto é: “Sou uma perfeccionista petrificada. Por que vou fazer algo se eu posso fazê-lo bem? Por que vou fazê-lo bem se eu posso fazê-lo muito bem? Mas… por que eu vou fazê-lo muito bem se eu posso fazê-lo grandioso?”

Coitadinha da Shakira… de mim… de você, meu caro amigo perfeccionista, que quer tudo perfeito, incrível, em um Brasil tão imperfeito.

Só para diversão, acesse www.balcast.com.br e dê uma olhada no primeiro episódio do meu BalCast. Depois, veja o terceiro, o quinto, até chegar ao décimo para perceber a diferença que há entre eles e a melhora constante de um para o outro. Isso é que o perfeccionista tem dentro de si: ele não sossega! O ponto que deixo hoje para reflexão é: ser perfeccionista é uma virtude ou um defeito?

Rafael Baltresca

Rafael Baltresca é palestrante, facilitador e hipnólogo corporativo. Atua desde 2004 como conferencista dentro e fora do Brasil.
Secured By miniOrange